O futuro do empreendedorismo está nas mãos dos cientistas

A esta altura, estamos lotados de livros, textos e falas sobre empreendedores, startups e unicórnios. Muitas das histórias deste universo estão envoltas em empolgação e grandes promessas. Mas por que se tornar uma empreendedora ou um empreendedor? Essa pergunta simples não tem a mesma atenção dos autores e especialistas do mercado. Afinal, por que tantos escolhem esse desafio?


Ao longo desse texto, tentarei trazer alguns insights sobre o assunto. Além disso, tentarei explorar por que acredito cada vez mais que cientistas e pesquisadores (acadêmicos ou práticos) deveriam estar no centro da próxima revolução empreendedora.


Por que empreendedores fazem o que fazem?


Por dinheiro. Não acredita? Não era a resposta inicial que você esperava? Ok, comecei com o aspecto financeiro para um efeito controverso e um drama inicial. E também para tirar isso da frente logo. Assim como qualquer cliente dirá que o principal fator para decidir comprar algo é o preço – mas na verdade qualquer empreendedor experiente sabe que é muito mais que isso. Portanto, é claro que se não houver uma expectativa de compensação financeira mínima, o empreendedorismo se torna uma opção não sustentável.


Agora vamos ao que interessa. Tenho certeza que cada empreendedor tem um motivo pessoal para trilhar esse caminho. Mas existem padrões. Empreender, principalmente no começo, é uma decisão individual e uma jornada de escolhas de vida. Muitos pesquisadores já investigaram o comportamento empreendedor, dentro de áreas muito distintas como as de Administração, Psicologia, Engenharia e até Medicina. Autores como Mclleland (1961), Bandura (1986), Sarasvathy (2001), Ries (2021), entre muitos outros, exploraram os mecanismos do empreendedorismo.


Por convicção. Empreendedores têm uma crença forte de que podem mudar o estado das coisas, criar algo melhor e de mais impacto. A necessidade de realização (ou conquista) é algo estudado como uma das características dos empreendedores. Ter sucesso – seja qual for o tipo de sucesso – é algo que literalmente brilha os olhos de quem tem perfil empreendedor. A realização é uma das três necessidades defendidas por Maclleland (1961) muito usadas no estudo do empreendedorismo. As outras duas são a necessidade de poder e a necessidade de afiliação.


Por oportunidade. Muitas vezes, a convicção nasce de um insight, uma epifania ou mesmo de uma simples percepção de oportunidade. Uma empreendedora pode observar uma possibilidade de atuar que nenhuma outra pessoa estava enxergando. Esse olhar para o futuro com otimismo e vontade de realizar é detectado em empreendedores ENDEAVOR (2015). Porém, vale lembrar que o empreendedor é aquele que está disposto a agir, a dar o próximo passo.

(Saiba um pouco mais sobre endeador)


Por necessidade. Aqui, não estamos falando da Teoria das Necessidades citada acima. Estamos falando das necessidades pessoais e sociais. Muitos empreendedores constroem seus negócios após alguma dificuldade ou crise em sua vida ou na de familiares. Isso é particularmente comum em países em desenvolvimento com situações de escassez e crises constantes. Nesse caso, a necessidade gera empreendimentos muitas vezes diferentes daqueles iniciados por oportunidade.


Por inércia. Parece estranho colocar inércia como uma possibilidade, mas existe o fato de que empreendedores podem herdar um negócio ou se envolver em negócios existentes de familiares e até amigos. Outro aspecto importante é que existem pessoas com perfil muito empreendedor que sempre estão construindo coisas em seu dia-a-dia sem de fato estabelecer que estão empreendendo.


Por escolha. Por fim, chegamos a um ponto muito curioso e fruto dos nossos tempos. À medida que startups, fundadores, investidores e inovações se tornaram populares, também cresceram o conhecimento e o corpo teórico sobre o assunto. Há hoje mais evidências de que, apesar das incertezas, é possível trilhar um caminho racional ao criar negócios de tecnologia. E isso possibilitou que uma carreira empreendedora se tornasse cada vez mais possível e atrativa. Vamos explorar isso mais a fundo.


Uma terceira via


Há algum tempo, uma pessoa que saía da universidade tinha praticamente duas escolhas em relação à sua carreira profissional. Quase sempre essa escolha era feita em um momento muito cedo na vida: uma carreira no setor público, talvez em pesquisa ou algum cargo estatutário, ou carreira no setor privado.


A atual dinâmica do mercado de trabalho mudou e podemos tranquilamente incluir mais uma opção: a de empreender. Não só o número de startups cresceu vertiginosamente nos últimos anos (G1, 2020) mas também o número de cientistas que empreendem (Emerge, 2022). O Brasil é reconhecidamente um país de empreendedores – mas muitos por necessidade, como já explicamos. Cada vez mais pessoas se desafiam a criar um negócio próprio visando principalmente a área de tecnologia.


Além disso, cresceram as opções de suporte ao fundador tecnológico, como mais laboratórios e incubadoras (públicos e privados), aceleradoras, investidores em estágio inicial, programas de inovação e fomento (Barreto et al. 2020). A CAOS Focado, se colocam como um desses atores: somos um grupo de empreendedores experientes que se aliam à cientistas e tecnólogos para fundar startups.


Existem bons exemplos de cientistas e tecnólogos que impactaram a sociedade e o mercado com empresas que fazem a diferença. Dos exemplos aqui do CAOS Focado (que você pode conferir aqui) a outros exemplos nacionais como Anna Bezerra, Bianca Maniglia, Carlos Guestrin, Sergio Mascarenhas, Caetano Sabino, Ricardo de Lazzaro, entre muitos, muitos outros .


Parece complicado? Bom, digamos que é um universo a ser explorado e que tem muita gente investindo nesse caminho.


Por que o futuro do empreendedorismo pertence aos cientistas?


Primeiro de tudo, sejamos claros: desde pelo menos o século XVIII o futuro sempre esteve nas mãos da ciência. O método científico trouxe avanços em que hoje se apoiam inclusive os empreendedores mais emblemáticos.


Além das motivações de qualquer empreendedor, como vimos acima, existem algumas muito atraentes para quem está na academia ou pesquisando soluções tecnológicas. Eu traria três grandes "porquês" para essas pessoas.


Porque empreender é aprender


A pessoa empreendedora é, acima de tudo, uma apaixonada por aprender, e o processo de aprendizagem é fundamental para o sucesso do que ela está criando (Politis, 2005). Ora, isso é justamente o que um cientista ou tecnólogo faz muito bem! Se a jornada científica e técnica traz muitos desafios ao conhecimento, a jornada empreendedora amplia esses desafios em termos de gestão, negócio, liderança, finanças e muitos outros.


Além disso, é possível gerar conhecimento científico e acadêmico junto com o negócio com evidências empíricas e desenvolver soluções que realmente afetem os clientes e usuários.


Porque ciência e tecnologia são meios para uma sociedade melhor


Como tudo na evolução recente de nossa sociedade, o empreendedorismo também passou por um processo recente de refinamento. Um novo olhar, mais voltado para dados e evidências, guia hoje os fundadores de startups de tecnologia. Um cientista ou acadêmico geralmente tem facilidade com métodos e processamento de informações.


Provocar mudanças mais próximas das pessoas é algo que muitos cientistas desejam. A criação de uma startup pode aproximar aqueles que desenvolvem tecnologia das pessoas que efetivamente são impactadas por ela.


Por que não?


Referências


Bandura, A. (1982). Self-Efficacy Mechanism in Human Agency. American Psichologist, 37(2), 122–147.

Barretto, M. R. P., Ribeiro, A. T. V. B., Dutra, D. de S., & Esteves, R. F. (2020). Early Stage: Shell For Scientific Entrepreneurship Playbook (2o). https://doi.org/10.5151/9786555060461

Endeavor. (2015). CULTURA EMPREENDEDORA NO BRASIL: o potencial para empreender com Alto Impacto. Recuperado de https://endeavor.org.br/ambiente/cultura-empreendedora-brasil-pesquisa/

Emerge [s/d]. HORIZONTE INOVAÇÃO & CIÊNCIA – o perfil da inovação de base científica no Brasil. Recuperado de https://emergebrasil.in/horizonte-inovacao-ciencia-o-perfil-da-inovacao-de-base-cientifica-no-brasil/. Acesso em 22 fev 2022.

Frederiksen, D.L., Brem, A. How do entrepreneurs think they create value? A scientific reflection of Eric Ries’ Lean Startup approach. Int Entrep Manag J 13, 169–189 (2017). https://doi.org/10.1007/s11365-016-0411-x

McClelland, D. C., & Mac Clelland, D. C. (1961). Achieving society (Vol. 92051). Simon and Schuster.

Politis, D. (2005). The Process of Entrepreneurial Learning: A Conceptual Framework. Entrepreneurship Theory and Practice, 29(4), 399–424. https://doi.org/10.1111/j.1540-6520.2005.00091.x

Ries, E. (2012). A startup enxuta. In Leya (1o ed). São Paulo: Leya.

Sarasvathy, S. D. (2001). What makes entrepreneurs entrepreneurial? Darden Business Publishing, 1–9. https://doi.org/10.2139/ssrn.909038

G1. (2020). Número de startups no Brasil aumentou 20 vezes nos últimos oito anos; 11 já são unicórnios. Recuperado de https://g1.globo.com/globonews/noticia/2020/01/15/numero-de-startups-no-brasil-aumentou-20-vezes-nos-ultimos-oito-anos-11-ja-sao-unicornios.ghtml

Wylinka (2021). 5 lições sobre empreendedorismo na academia com a inventora do plástico ecológico de babaçu. Recuperado de https://medium.com/deep-wylinka/5-li%C3%A7%C3%B5es-sobre-empreendedorismo-na-academia-com-a-inventora-do-pl%C3%A1stico-ecol%C3%B3gico-de-baba%C3%A7u-9d61cc9c6e43 em 23 fev 2021.